Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Chris Marker (2) - uma entrevista


Foto: Chris Marker (Paris, maio 1968)


Chris Marker, em uma visita às filmagens de O Sacrifício, de Andrei Tarkovsky (Foto: Lars-Olof)


A entrevista abaixo foi publicada no jornal francês Liberation e traduzida por Marilia Martins, no blog Diário de NY (http://oglobo.globo.com/blogs/ny/post.asp?cod_Post=76215)


Uma entrevista rara de Chris Marker

São raríssimas as entrevistas de Chris Marker. Aos 81 anos, vivendo em Paris, esse cineasta francês nascido em Neuilly-sur-Seine continua a se aventurar por novos meios, misturando fotografia, cinema, vídeo, instalação, CD-Rom. A obra de Marker é das mais extensas e variadas. Ele fez parcerias notáveis com Alain Resnais, em “Les statues meurent aussi”, de 1953, e em “Nuit et brouillard”, de 1955. Tornou-se internacionalmente conhecido com “La Jetée”, de 1962, um filme de ficção científica feito como uma série de fotogramas imóveis e um texto-ensaio sobre as relações entre tempo e imagem. Passou pelo cinema militante dos anos 60 e 70 com documentários políticos, como “La sixième face du Pentagone” (de 1968, sobre as manifestações contra a guerra do Vietnem) e os filmes da série “On vous parle” (inclusive com dois filmes feitos no Brasil, tematizando a ditadura militar, a tortura e a resistência armada, “On vous parle du Brésil: torture (1969) e “On vous parle du Brésil: Carlos Marighella”, de 1970).
Nos anos 80, ele dirigiu um dos marcos do documentário experimental, “Sans soleil” (de 1983, já lançado no Brasil em DVD). Nos anos 90, Marker se dedicou aos filmes em forma de poema, como na série de curtas “Bestiaire” _ “Chat ecoutant la musique” (que está no youtube); “An owl is an owl is an owl” e “Zoo piece” _, aos filmes em forma de ensaios, como “Le tombeau d’Alexander” (homenagem póstuma ao cineasta russo Alexander Medvedkin, feito em 1992 e já disponível em DVD), “Une journée d’Andrei Arsenevich” (uma homenagem a outro cineasta russo, Andrei Tarkovsky, morto em 1986). Em 1998, Marker produziu um CD-Rom interativo chamado “Immemory”, hoje difícil de ser encontrado, produzido pelo Centre Georges Pompidou. Nos anos 00, ele filmou “Les Chat perchées” (The case of the grinning cat”, em inglês, um documentário sobre um grafiteiro cuja marca registrada era o desenho de um gato, que apareceu em murais da cidade de Orleans, depois em Paris e em várias outras cidades européias. E criou uma vídeo instalação para o MOMA, em 2005, intitulada “Owls at noon prelude: the hollow man”, inspirado num poema de T. S. Eliot.

ENTREVISTA/CHRIS MARKER

LIBERATION: Cinema, fotonovela, CD-Rom, instalação de vídeo... Existe algum meio que você não experimentou?
MARKER: Sim, gouache.
LIBERATION: Por que você concordou que apenas alguns de seus filmes fossem lançados em DVD e como fez a escolha?
MARKER: Vinte anos separam “La Jetée” de “Sans soleil”. E outros vinte anos separam “Sans Soleil” de hoje. Nestas circunstâncias, se eu fosse falar em nome da pessoa que fez esses filmes, não seria uma entrevista, mas um debate. Eunão acho que escolhi ou aceitei: alguém falou em fazer e foi feito. Eu já sabia que há certa correspondência entre esses dois filmes, “La Jetée” e “Sans soleil” e não precisava explicar isto. Até que eu encontrei uma nota anônima sobre meus filmes, publicada num programa em Tóquio, que dizia: “Breve a viagem terá um fim. E então nós vamos saber se a justaposição de imagens faz algum sentido. Vamos entender que rezamos com um filme como quem está numa peregrinação, a cada vez estamos novamente diante da morte: no cemitério de gatos, diante de uma girafa morta, ao lado de kamikazes no momento do salto, em frente a guerrilheiros mortos em combate. Em “La Jetée”, o experimento com o futuro termina com a morte. Ao tratar do mesmo tema, vinte anos depois, Marker supera a morte com a oração”. Quando li isso, escrito por alguém que eu não conheço, que não sabia como fiz aqueles filmes, senti uma emoção e percebi que “alguma coisa” havia, afinal, acontecido.
LIBERATION: No CD-Rom “Immemory”, lançado em 1999, você disse que havia encontrado um meio ideal para o seu trabalho. O que você acha do DVD?
MARKER: No CD-Rom, o importante não é a tecnologia e sim a arquitetura, em forma de árvore, na qual de um mesmo caule saem vários galhos, várias possibilidades diferentes de jogo. Vamos agora fazer DVD-Roms. A tecnologia do DVD é soberba, mas nem sempre é cinema. Godard definiu de uma vez por todas: no cinema, você levanta os olhos para a tela; na televisão, você baixa os olhos para o monitor. E ainda há a questão do projetor: as duas horas de uma sessão de cinema são passadas no escuro. É a porção noturna que fica junto a nós, que fixa a memória de um filme de um modo bem diferente de um filme filme num monitor de TV ou de computador. E vamos ser honestos: é bem diferente. Assite outro dia “Um americano em Paris” na tela do meu iBook e quase redescobri a luz que eu havia sentido em Londres, em 1952, quando estava filmando com Alain Resnais e Ghislain Cloquet “Les statues meurent aussi”... Nós começávamos a filmar todos os dias, depois de ver a sessão matinal, das 10h, de “Um americano em Paris” num cinema da Leiscester Square. Eu achei que havia perdido aquela luz para sempre, taé que revi o filme no computador.
LIBERATION: A democratização dos meios de filmagem (DV, edição digital, distribuição via internet) seduz um cineasta socialmente engajado como você?
MARKER: Esta é uma boa oportunidade para eu me livrar deste rótulo. Muita gente acha que “engajado” significa “político”, e a política, a arte do compromisso (que é o que deveria ser porque se não há compromisso, existe apenas a força bruta, da qual temos tantos exemplos atualmente), me entedia profundamente. O que me interessa é a história. A política me interessa apenas na medida que carrega a marca da história no presente. Com uma curiosidade obsessiva (que eu identifico com alguns dos personagens de Kipling, com o Elephant-boy de “Just-so stories”, por sua curiosidade insaciável), eu continuo a perguntar: como as pessoas conseguem viver neste mundo? E vem daí a minha mania, de ver como as coisas são neste lugar ou naquele. Por muito tempo, aqueles que eram melhor posicionados para “ver o que estava acontecendo”, não tinham acesso aos meios para dar formas às suas percepções, e a percepção sem forma é enfadonha. Agora, de súbito, esses meios estão acessíveis. Para gente como eu, é um sonho que se tornou realidade. Escrevi sobre isto num folheto que saiu no DVD do meu filme. Uma cautela necessária: a democratização dos meios ainda carrega constrangimentos financeiros e técnicos, e não nos desobriga da necessidade do trabalho.Comprar uma câmera de DV não confere a alguém, magicamente, o talento para fazer filmes que ele não tenha, nem fazer desaparecer a preguiça daqueles que não querem se interrogar para saber se esse talento existe ou não em si mesmos. Você pode miniaturizar o quanto quiser o equipamento, mas fazer um filme existe muito trabalho e uma boa razão para fazer isto. Esta é a história de cineastas, como os que se juntaram no grupo Medvedkin, jovens operários que, no período pós-68, tentaram fazer filmes sobre suas vidas, e que tentaram alcançar algum recurso técnico, com os meios que dispunham na época.Como eles reclamavam: “A gente chega em casa depois do trabalho e você ainda nos pede para trabalhar mais!” Mas eles perseveraram e você deve reconhecer que algo aconteceu ali, porque 30 anos depois nós os vemos apresentar seus filmes no Festival de Belfort,diante de uma platéia muito atenta. Os meios disponíveis na época eram o filme 16mm mudo, o que representava três minutos de rolo de filme, um laboratório, uma mesa de edição, alguma forma de adicionar o som na edição, tudo o que você tem hoje dentro de uma pequena caixa do tamanho da palma da mão. Eles deram uma lição de modéstia para os jovens de hoje, que disperdiçam recursos, assim como os jovens daquela época aprenderam sua lição ao se juntarem num grupo sob inspiração de Alexander Ivanovitch Medvedkin e seu cinema-trem. Medvedkin foi o cineasta russo que, com os meios do seu tempo (filme 35mm, laboratório, mesa de edição, tudo instalado num trem) saiu filmando nas locações mais diversas, levando os filmes aos lugares mais distantes. Medvedkin inventou em 1936 a televisão: filmava durante o dia, revelava e editava de noite, e passava no dia seguinte para as pessoas que ele havia filmado (e que muitas vezes participavam da edição). Acho que isto é fabuloso e ele não foi sequer mencionado na "História do cinema", escrita por George Sadoul, livro considerado naquela época a “bíblia do cinema soviético”. Os trabalhadores que eu filmei na Rodésia em 1967 eram bem parecidos aos kossovares que eu filmei em 2000: nunca tinham visto televisão. Para minha surpresa, certa vez estava explicando a edição de "Encouraçado Potemkim" para um grupo de aspirantes de cineastas na Guiné-Bissau, usando velhos rolos de filmagem. Agora, aqueles cineastas estão tendo filmes selecionados para o Festival de Veneza. Fiquei impressionado com um musical de Flora Gomes. Achei a síndrome de Medvedkin outra vez num campo de refugiados da Bósnia em 1993,um grupo de garotos que havia aprendido técnicas de TV pirateando transmissões por satélite e usando equipamentos antigos emprestados por ONGs. E eles não haviam copiado a linguagem dominante: eles usaram aqueles recursos para ganhar credibilidade e produzir notícias para outros refugiados. Uma experiência exemplar. Eles tinham as ferramentas e tinham a necessidade. Ambos são indispensáveis.

Observação: originalmente publicado em 7/10/2007- 17:00

Domingo, 28 de Junho de 2009

Paisagem


Fotos: Flávio Dutra

"Olha, descobre este segredo: uma coisa são duas – ela mesma e sua imagem".

Carlos Drummond de Andrade
Do prefácio do catálogo da exposição “Alécio de Andrade”, no Instituto Moreira Sales até 26/07.

Sábado, 27 de Junho de 2009

Da Folha de SP (5) - Chris Marker, polaroids e lomografia


Cenas do curta "La Jetée', um dos raros trabalhos ficcionais do artista francês Chris Marker, realizado com fotografias fixas

Um mito da caverna

O ermitão Chris Marker, cineasta e fotógrafo parisiense que não se deixa fotografar, é tema de duas mostras em São Paulo

SILAS MARTÍ - DA REPORTAGEM LOCAL

Chris Marker se esconde atrás do sorriso de um gato. Não se deixa fotografar e deu sua última entrevista, evasiva até não poder mais, no Second Life. Diz que se informa pela Al Jazeera e pelo canto dos passarinhos do 20º arrondissement. Dá suas opiniões nas tiras do gatinho Guillaume, que publica em jornais franceses.Nascido Christian François Bouche-Villeneuve, o parisiense de 87 anos simplificou até o nome para o sintético Chris Marker. Prefere o silêncio à fala, a tarja preta no lugar de imagens que não interessam.Duas mostras em São Paulo vão tentar jogar luz sobre o ermitão Marker. Começa amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil um festival com 33 de seus filmes. Em julho, o Museu da Imagem e do Som abre mostra com 200 fotografias de Marker feitas entre 1952 e 2006. Uma galeria de Nova York e outra de Moscou também fizeram há pouco retrospectivas da obra do artista.Marker não saiu de Paris e seguiu por e-mails lacônicos os preparativos. "Ele é famoso pela reclusão", diz Bill Horrigan, que cuidou da mostra no MIS e diz ser o único curador a fazer contato, uma vez por ano, com Marker. "Ele protege sua privacidade num grau excessivo."Também exagera nas doses de modéstia. Marker não se considera um cineasta, mas já ganhou o Urso de Ouro em Berlim por "Descrição de um Combate", de 1960. Filmou com Alain Resnais e Jean-Luc Godard, mas diz que só eles são diretores de verdade. Também não se diz fotógrafo, como foi seu amigo Henri Cartier-Bresson. Ele não gosta de alarde.Talvez porque já disse tudo que tem a dizer em "Sans Soleil". No filme de 1982 que extrapolou os limites do documentário, ele dividiu o mundo em listas de coisas elegantes, coisas tristes, coisas que não valem a pena filmar e coisas que fazem bater o coração.Não usa adjetivos, "etiquetas com o preço das coisas". Traduz a ideia de que o "horror tem um nome e tem um rosto" -de Francis Ford Coppola em "Apocalypse Now" e, por extensão, Jospeph Conrad no livro "Coração das Trevas"- à noção de que "a beleza absoluta também tem nome e rosto".Por isso não pensa duas vezes, tanto em seus filmes, quanto nas fotos que faz, em estilhaçar o tempo e manter só a fração, uma das 25 num segundo cinematográfico, detentora dessa beleza ou desse horror.Instantes suspensos"Ele amava a fragilidade desses instantes suspensos, essas lembranças que serviam apenas para deixar lembranças", diz a narradora de "Sans Soleil" sobre o protagonista oculto do filme, numa descrição que cabe sem exagero também a Marker.Ao contrário do cinema tradicional, ele prefere que seus atores e os flagrados nas ruas encarem a câmera. Nas manifestações da juventude parisiense, de maio de 1968 a 2002, na Islândia, em Guiné-Bissau e em Tóquio, sai em busca desses instantes privilegiados.Marker diz que rouba olhares como "um trombadinha rápido, correndo com seu tesouro". Naquele instante, e há centenas deles na mostra do MIS, ele costuma encontrar o que chama de "rosto da solidão"."Naquela fração de segundo, o operário chileno sabia que a fábrica nacionalizada era propriedade sua, o boxeador tailandês sabia que tinha perdido, a esquerdista alemã sabia da derrota de seu partido", escreveu Marker sobre seus retratos.Fez imagens das primeiras eleições na Alemanha depois da queda do Muro de Berlim, de ativistas no Brasil, do início da Perestroika em Moscou, mas não chama sua obra de política. "A política não me interessa", diz. "Me interessa a história."E a memória. Registrou a mesma esquina de Paris em 1961 e 2001 para mostrar como cresceu ali uma árvore, enquanto o resto do mundo permaneceu igual. "Nós não lembramos, recriamos a memória, como recriamos a história."Ele acredita na fabricação da narrativa e do real, usando a memória como motor estético. Em "La Jetée", filme de 1962, seu melhor exemplo desse tempo desconstruído e refeito, usou só os fotogramas cruciais para contar a história."É preciso que o abandono seja uma festa, que o adeus receba também uma cerimônia."

Marker reescreve cenas do passado

PEDRO BUTCHER - COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

"Não é o passado que nos domina, são as imagens do passado." Epígrafe do filme "O Túmulo de Alexandre", a frase do pensador e crítico literário George Steiner poderia se aplicar a toda a obra do artista francês multimídia Chris Marker.Ao reinventar e recontextualizar materiais captados por outras pessoas, em outros tempos, não raro misturando imagens colhidas por ele mesmo, Marker confere aos registros do passado nova potência e atualidade, retirando deles sua condição de fantasma.Nascido em 1921, na França, Marker é de uma geração formada pelo cinema (e pelos traumas da Segunda Guerra).Mas, possivelmente, foi o único "cineasta" de sua geração capaz de abraçar de imediato as novas tecnologias da imagem, sem se atrelar à película. Uma decisão que contribuiu para mantê-lo à margem, mas que, com o tempo, mostrou-se visionária.Uma ideia de cinema, no entanto, sempre serviu de baliza para seu trabalho: aquela do filme-ensaio, proposta pelo cineasta russo Sergei Eisenstein.Para além da montagem dialética, a operação envolve novas conexões que incluem, sobretudo, o som. Não por acaso, boa parte de seus filmes é narrada em primeira pessoa.Marker não é um "cineasta político", mas um pensador e poeta da história. Em rara entrevista ao jornal francês "Libération", em 2003, ele falou sobre o estigma do diretor engajado: "Para muitos, engajado quer dizer político, e a política, arte do compromisso -o que lhe diz respeito de fato. Retirado o compromisso, só existem relações de força bruta (...). O que me apaixona é a história, e a política me interessa somente na medida em que ela é o recorte da história no presente".Mesmo "La Jetée" (a plataforma), um de seus raros trabalhos ficcionais, realizado com fotografias fixas, fala da questão do tempo. O ponto de partida são duas imagens presentes na memória do personagem central, sobrevivente de uma hecatombe nuclear: o rosto de uma mulher e a morte de um homem. Mas o passado, aqui, é também futuro -uma bela síntese dos objetivos de Marker.Em meio a uma obra farta, que mistura suportes e, em alguns casos, liberta-se da projeção diante de uma plateia (ele foi um dos primeiros artistas a produzir um CD-Rom, por exemplo), dois filmes se destacam na mostra do Centro Cultural Banco do Brasil. Não por acaso, são reflexões sobre o comunismo e sua derrocada: "O Fundo do Ar É Vermelho" (1977), e "O Túmulo de Alexandre" (1992). O primeiro é um épico de três horas, movido pelo contraste entre os movimentos de esquerda do fim dos anos 60 e o autoritarismo soviético, tomando como ponto nevrálgico maio de 68, na França, e a invasão de Praga, em agosto daquele mesmo ano. O uso do material de arquivo é assombroso.O segundo é formado por seis cartas dirigidas ao cineasta russo Alexandre Medvedkine, autor de "A Felicidade" (1934), uma figura que, na visão de Marker, foi injustamente excluída dos cânones cinematográficos. (detalhe: "A Felicidade" também está na mostra).Merecem atenção, ainda, "As Estátuas Também Morrem" (1953), correalizado com Alain Resnais, "A.K." (1995), belíssimo filme sobre as filmagens de "Ran", de Akira Kurosawa, e "Um dia de Andrei Arsenevich" (1999), sobre Andrei Tarkovski.

MOSTRA CHRIS MARKER: BRICOLEUR MULTIMÍDIA Quando: a partir de amanhã, até 5/ 07; qua. a dom. (bb.com.br/cultura)Onde: Centro Cultural Banco do Brasil - São Paulo (r. Álvares Penteado, 112, tel.: 0/xx/11/ 3113-3651)Quanto: R$ 4 (classificação: 12 anos)
Fonte: Folha de SP, do dia 23/06/2009.


Projeto tenta resgatar fábrica de filme Polaroid
DA REPORTAGEM LOCAL

Em junho de 2008, foram fechadas as duas últimas fábricas de filmes para a Polaroid -câmera famosa pela revelação instantânea das fotos. Logo, um grupo juntou-se para não deixar "uma das maiores invenções da história da fotografia morrer", disse Marlene Kelnreiter, uma das fãs da máquina à Folha, por e-mail.Eles idealizaram o The Impossible Project, compraram uma fábrica holandesa que encerrava as atividades e querem, até 2010, desenvolver a tecnologia para que as Polaroids antigas tenham suprimentos novos para funcionar.As fotografias em papel que se autorrevelam farão um contraponto "ao entediante mundo da fotografia digital", para Kelneiter."As pessoas amam poder tocar e cheirar a imagem no nosso mundo virtual. Além disso, é pura mágica ver como a Polaroid se revela -e os instantâneos são sempre bons para uma surpresa."O projeto, idealizado por Florian Kaps, ex-dirigente da Sociedade Lomográfica Internacional está com o cronograma adiantado. Em setembro, espera-se, os primeiros protótipos do novo filme poderão ser testados.A página na internet http://www.the-impossible-project.com/ conta mais sobre a iniciativa e vende camisetas temáticas que "financiam diretamente" o reativação da fábrica holandesa.

Fonte: Folha de SP, do dia 22/06/2009


Câmera soviética roda o mundo em corrida
Fotógrafo propõe jogo para conhecer lugares

GUSTAVO VILLAS BOAS - DA REPORTAGEM LOCAL

Eles ainda gastam dinheiro com filmes fotográficos. Eles compram câmeras em antiquários. Eles vão promover uma corrida global, com dez equipes, de países tão distintos quanto podem ser Brasil e Irã, para mostrar, com fotos inusitadas, suas cidades.Quem vai se mexer nessa corrida são as máquinas. Mais especificamente, a cultuada Lomo Kompact Automat, ou LC-A. A primeira delas nasceu há 25 anos, em uma fábrica estatal da antiga União Soviética.No Brasil, a artista plástica carioca Rebeca Rasel vai receber uma dessas câmeras para a corrida. A LC-A é o símbolo da lomografia, movimento que prega o uso de filmes analógicos e os resultados inusitados "com cores saturadas, fantasmas, efeitos estéticos interessantes", diz Rasel, frutos do acaso -ou da tecnologia ruim das fábricas comunistas.Praga, 1991As Lomo Kompact só viraram objetos de desejo de artistas e fotógrafos experimentais em 1991, quando estudantes vienenses as descobriram em Praga (ex-Checoslováquia). Rapidamente se popularizaram, e, em 1992, estava fundada a Sociedade Lomográfica Internacional, que promove a corrida global e vende câmeras do tipo.Seu site, www.lomography. com, é ponto de encontro de uma comunidade estimada em 1 milhão de membros.Os 25 anos da câmera soviética movimentaram a comunidade. Um dos objetivos da corrida é "celebrar a foto analógica e a LC-A", diz Matt Charnock, o idealizador da atividade.Sem dinheiro para viajar pelo mundo, o fotógrafo, que mora na Inglaterra, pensou em enviar aparelhos para que pessoas registrassem suas cidades -ideia encampada pela Sociedade Lomográfica.Com isso, aparelhos foram enviados para entusiastas da lomografia na América, na Europa e na Ásia. Rasel será a primeira a receber a câmera destinada à equipe da América do Sul, composta por nove brasileiros e um chileno.Cada um dos membros deve cumprir algumas missões e passar a LC-A para o próximo de uma lista. Mais do que competição, a corrida visa a "diversão", diz Charnock.Rasel, que já expôs suas lomografias, feitas em parceria com a também artista Márcia Abreu, acha "fascinantes" os efeitos do acaso e defende o "prazer estético obtido com a tal imagem", mas diz que "não basta tirar qualquer foto para dizer que é arte. É interessante estudar uma poética, ter um tema". A viagem das Lomo Kompact Automat -que terão um localizador GPS embutido- pode ser acompanhada pela página da Sociedade Lomográfica. As fotos de Rasel, em mar ciarebeca.blogspot.com.

Fonte: Folha de SP, do dia 22/06/2009

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Ensaio (II) - Eduardo Seidl



Lavoura Seca
A face oculta da celulose

Texto e fotos de Eduardo Seidl**

As empresas de celulose chegaram ao estado no início da década como a solução para um problema que começava a tomar as páginas dos jornais: a pobreza da região sul do estado. Com promessas de geração de emprego, desenvolvimento, enriquecimento para todos e apoio governamental irrestrito, as lavouras de madeira para celulose cresceram com a mesma rapidez e irresponsabilidade das licenças ambientais.

Patrocinando quantidade de meios de comunicação, empresas de celulose blindaram pautas positivas multiplicadas pela mídia. Imitações de livros didáticos foram presenteadas para escolas públicas em todo estado. A estratégia parecia estar muito bem armada até serem surpreendidos pela quebra do jogo econômico no qual se sustentavam.

As experiências vividas com o vizinho Uruguai não serviram de exemplo. A paisagem da pampa mudou. As práticas econômicas também. Diversos produtores rurais trocaram os rebanhos e lavouras de alimento pelas fileiras de árvores exóticas. O arrependimento atinge boa parte desta população. As perdas com as bolsas comprometem metas de produção e preços da matéria prima para celulose. A biodiversidade já está ameaçada. Em alguns lugares do estado, areais crescem diariamente. A desertificação da pampa já está em processo. O que fazer com hectares de tocos de eucalipto em terras secas? A retomada das tradicionais produções não receberá os subsídios e incentivos que teve o plantio de eucaliptos.

Todavia, não se fala das conseqüências econômicas e ambientais disto de forma contextualizada. A intensidade da afiada seca pode não ser só a conseqüência da falta de chuvas. A proliferação de tantas gripes e febres pode não ser só culpa do porco.

** Eduardo Seidl é repórter fotográfico do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre. Este ensaio é o "Ensaio" (!) do Jornal da Ufrgs do mês de junho/2009.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Dona Anna, dona Aracy (2)


Dona Aracy, dona Anna

Dona Anna me ligou hoje pedindo as fotos. "Mas eu já lhe mandei as fotos, Dona Ana." "Entregou duas, mas eu quero TODAS as outras! Pode fazer tudo duplo, pra mim e pra Aracy. E depois só me diz quanto foi, não tem problema. Mas me avisa antes, por que não uso cheque, não tenho cartão de crédito e comigo é tudo em dinheiro sonado!" "Tá bom, dona Anna vou fazer as fotos e levo aí pra senhora." "Certo, meu filho. Mas traz até o final do mês porque o filho da Aracy vai casar e ela vai embora pra Belo Horizonte". "Mas deixa eu te contar uma do remédio, antes de desligar: eu tive um AVC em outubro, mas pouca coisa, o único problema é que tô meio sem memória, a casa tá toda cheia de bilhete pra me lembrar do que esqueço. Aí, outro dia, fui no banco e a Jacira, a moça da caixa, me perguntou qual era o remédio que eu tava tomando. E eu lembrava? Sabia que tinha a ver com tango, mas não lembrava o nome. Pensei, pensei... tango... Carlos Gardel... Gardel.... GARDENAL! Lógico! Assim não dá pra esquecer! Traz as fotos logo, viu meu filho?"

:) :) :)

Pra entender essa história é bom olhar uma postagem mais antiga, no link http://flaviodutra.blogspot.com/2008/07/dona-anna-dona-aracy.html

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Fahrenheit 451

Na última parte do semestre da disciplina de Fotojornalismo da Unisinos os alunos apresentam seminários sobre temas diversos ligados a fotógrafos, fotojornalismo, documentarismo, fotografia e comunicação. Os primeiros grupos começaram as apresentações na semana passada. Pra mim, este é um momento que sempre pode ser brilhante: a possibilidade de estudar um assunto, aprofundá-lo, e, se formos generosos, bem compartilhá-lo com um "público" que, em princípio, deveria ser interessado, se não por fotografia, por temas relativos à comunicação, ao menos. E, ainda, de quebra, exercitar uma das coisas que nos faz MAIS humanos: sermos criativos. E evitarmos o que nos faz MENOS humanos: a rotina e sua filha pródiga, a modorra.
Um dos trabalhos apresentados foi sobre Sebastião Salgado, certamente uma referência quando se fala em fotografia brasileira, goste-se ou não. Em uma parte do trabalho, Natacha, Juliana e Bruno** pediram para que fotógrafos e pesquisadores brasileiros (e um português) escolhessem uma foto do "Tião" e escrevessem o porquê da escolha. Chamaram isso de "Fahrenheit 451" baseados na idéia do livro de Ray Bradbury (segundo a Wikipedia, "o romance apresenta um futuro onde todos os livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas anti-sociais e hedonistas, e o pensamento crítico é suprimido. O personagem central, Guy Montag, trabalha como “bombeiro” - o que na história significa “queimador de livro”. O número 451 refere-se à temperatura, em Fahrenheit, a qual o papel ou o livro incendeia."). Ficou SEN-SA-CIO-NAL! Pedi a eles autorização para reproduzir aqui as fotos escolhidas e as opiniões que eles colheram. Vai abaixo.

**Compilação de depoimentos feita por Juliana Chaves, Natacha Kotz e Bruno Alencastro, a partir da pergunta: se você pudesse salvar (preservar para a prosperidade) apenas uma fotografia de todo o trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado, qual imagem você guardaria? Por quê?

Izan Petterle
Colaborador da National Geographic Brasil
Sintetizar o trabalho do salgado em apenas uma foto é algo umtanto complicado para mim, até porque gosto muito da fase atual dele, a de documentar o que sobrou da natureza intocada do planeta. Inspira-me isso, a capacidade de reinvenção que um artista deve ter. Ele teve muita coragem para abandonar a temática social que o consagrou.
Penso que ele aparece como um Ansel Adams dos tempos modernos, suas imagens tem a classe e a maestria dos grandes mestres da fotografia, mas suas fotos são carregadas de uma forte ideologia contemporânea, como um manifesto engajado na preservação da nossa própria espécie, provavelmente a mais ameaçada de extinção.

Alexandre Belém
Editor do Blog Olha, Vê
A foto que escolhi é a de umas crianças vestidas de anjinhos em Juazeiro do Norte (CE), que foi feita em 1981. Escolhi ela por uma questão de memória. Essa foto é uma das primeiras que vi de Salgado.
Na realidade, quando conheci o trabalho de Salgado, por volta de 1991, comprei o livro As Melhores Fotos - Sebastião Salgado (Boccato Editores, 1992).
É uma compilação maravilhosa. Para mim, a melhor época de Salgado. O livro tem todas as clássicas que construíram o mito Salgado. São imagens soltas, leves e que nos mostra belas fotos e histórias. Se pudesse, salvaria o livro.

Ricardo Chaves
Editor de fotografia do jornal Zero Hora
Eu escolheria o ensaio do Sebastião Salgado sobre Serra Pelada. Seria difícil selecionar só uma, mas qualquer dessas duas podem representar o todo.
Escolho isso por ser no Brasil e também pelo significado que o garimpo tem como sonho. São (eram?) brasileiros miseráveis que buscavam uma vida melhor. Isso já não está lá, mas continua sendo um sonho nacional.

Luiz Eduardo Robinson Achutti
Fotógrafo e professor do Instituto de Artes (UFRGS)
Assim, sem pensar muito, nem voltar a olhar as fotos dele que há tempos não olho, eu lembrei daquela do gordo lambuzado em frente a uma roda enorme. O contraste é bom, de alguma forma ela cita uma outra grande foto do Lewis Hine que já foi citada pelo Chaplin no “Tempos Modernos”, se não estou enganado.
O Salgado evoca muito, e não por acaso, a documentary photography americana do princípio do século passado. O seu “Workers” é uma retomada, muitos anos depois do “Men at Work”. O Salgado é inteligente e esperto.

Maria Wagner
Editora de Cultura do Jornal do Comércio
Guardaria a imagem da trilha humana na Serra Pelada, que dá corpo à humilhante peregrinação de uma parte da população brasileira, escrava em 1986 e ainda hoje da política corrupta que impede a democrática distribuição de renda e o acesso à educação que liberta.
Essa fotografia emociona. É miséria humana serpenteando morro acima, num esforço danadamente além do puramente humano. Acho comovente.


Walter Firmo
Fotógrafo carioca
O trabalho de Sebastião Salgado é encantador sob todos os aspectos. É um humanista afeito as delações e tributos conferidos no sabor amargo da luz transcodificando certo olhar miserável, mas complacente na denúncia que ali ou aqui certa pessoa física sofre e se desampara.
Eu gosto de muita coisa dele, porém, fico com as fotos do livro de Outras Américas.

Eneida Serrano
Fotógrafa gaúcha
Provocada por teu projeto, saí a conhecer mais fotos de Sebastião Salgado. Como deve ter acontecido à maioria dos que se envolvem com o trabalho dele, escolher apenas uma foto torna-se muito difícil.
Pensei, primeiro, em preservar um pouquinho de esperança ou dignidade, nos olhares de algumas crianças ou alguns velhos fotografados por ele. Depois, achei melhor a eloqüência das fotos trágicas, mas belas por sua luz e sua composição perfeitas. Elas gritam, são definitivas.
No entanto, descartei-as também porque imagino que serão escolhidas por muitos, pois são fotos muito atraentes, instigantes.
Acabei optando pela pior imagem que vi, onde o ser humano é mostrado como lixo. É uma foto que supõe a presença de outro ser humano capaz de mover aquela máquina que remove e empilha corpos de refugiados, vítimas da fome ou de doenças, no caso em Ruanda, mas, principalmente, vítimas da nossa indiferença.
Escolhi essa foto com vergonha da nossa contemporaneidade. Queria ter um pouco de esperança no futuro ao manter essa horrível lembrança.

Fernanda Chemale
Fotógrafa gaúcha
Escolho a imagem desta criança menina, pela postura que ela tem, senhora de si.
Enquanto criança carrega a semente do homem. Enquanto menina e mulher guarda o legado cultural e a perpetuação.

Fernanda Rechenberg
Fotógrafa e Doutoranda em Antropologia Social
A obra do Salgado é extensíssima, e é mesmo difícil conhecê-la por completo, mas eu vou destacar aqui uma fotografia, uma das primeiras que conheci de sua obra, que sempre me impactou.
Escolhi esta fotografia, não por ser, no plano da racionalidade, uma “boa” fotografia. Até porque as imagens de Salgado nos trazem sempre lições de mestre no domínio da luz natural, do instante decisivo, na relação com o sujeito fotografado e outros aspectos importantes do fazer fotográfico.
Essa tampouco é uma foto “bonita”. Ela é triste. E impactante. Porque os grandes olhos dessas crianças não vêem apenas o estrangeiro que lhes retrata.
Esses três olhares falam da condição humana, no espanto de uma vida que ainda não se conhece, que está por vir, por enfrentar, nas duras condições da África. Nos indagam a possibilidade de continuarem existindo. Acho que é uma foto que nos toca em nossa humanidade.

Rodrigo Marcondes
Coletivo Garapa
Engraçado, nos tempos de faculdade eu tinha um pôster dessa foto do Salgado no meu quarto de república estudantil.
Era um retrato do livro Terra, que tinha sido exposto no Átrio da Universidade, e despertado em mim um olhar sobre a fotografia que eu nunca tinha tido.
O personagem da foto é um trabalhador rural, que dentro de um galpão ou armazém, olha fixamente para dentro da câmera. A expressão séria, quase ameaçadora, é reforçada pelo facão que ele segura na mão direita (se me recordo bem). A foto é vertical e revela o dorso forte e nú do homem, que veste uma calça jeans e nada mais.
Consigo ver o personagem da foto olhando pra mim, recordo até da luz que entrava pela janela e insidia sobre o pôster na parte da manhã ... Essa é a imagem que eu levaria para a posteridade.


Pio
CIA DE FOTO
A gente salvaria o trabalho Outras Américas. Se tivéssemos que salvar apenas uma? Tarefa difícil, pois um argumento não se sustenta por uma imagem!
Mas ficaríamos com a foto da "Santa Ceia", Brasil, 1981. Essa foto ilustra muito bem o trabalho dele. Sua culpa católica e composição sacra.
Tudo que ele fez depois, “Imagrations”, “Workers”, “Sem Terras”, serviu de alguma forma para confirmar o Outras Américas, e, em nossa concepção, nunca conseguiu superar esse trabalho.
De uma forma, sua história profissional ganhou força e efeitos maiores, mas se voltarmos a uma relação mais pura com a fotografia, mais "low profile" (se é que isso é possível!), o trabalho dele estagnou.
Cresceu em proporção, alcance, estrutura, mas ficou aquém do Outras Américas.
Observamos que somos admiradores da obra dele, mas quando detalhamos essa obra, enxergamos fases que nos emocionam mais.


Jorge Pedro Sousa
Investigador e professor de Jornalismo na Universidade Fernando Pessoa
Tecnicamente perfeita, esta fotografia profundamente humanista e até redentora de Sebastião Salgado evoca a suprema dignidade do ser humano mesmo em situações-limite.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Da Folha de SP (4) - Álbuns de família


Foto: Flávio Dutra

Álbuns de família

RUY CASTRO

Na imprensa do passado -aliás, nem tão passado; até outro dia era assim, pelo menos nos jornais populares-, valia tudo para capturar uma ou mais fotos de um morto em desastre importante. O primeiro passo era entrevistar a mulher e os filhos da vítima e pedir emprestado o álbum de família. A mulher, compreensivelmente, relutava. O repórter prometia devolvê-lo, voltava para o jornal com o troféu e, arrancadas as fotos que interessavam, o álbum se perdia nos desvãos da redação.Caso a família se recusasse a emprestar, a ordem era roubar o porta-retrato sobre a cômoda. Assim, garantia-se a foto e se impedia que a concorrência a tivesse. Como a maioria dessas fotos era de estúdio, posada, tipo retrato para passaporte, os mortos costumavam ter um ar solene e oficial. A imprensa era cruel.Hoje, não é mais necessário ferir uma família surrupiando-lhe as fotos do ente querido. Basta saber o nome do indigitado. Se ele é importante o suficiente para sair no jornal, sua foto estará no Google ou em algum "site de relacionamento". E nem precisa ser famoso. A quantidade de imagens circulando pelo ciberespaço é abundante e, com dois ou três cliques, está ao alcance de qualquer diretor de arte.Ao contrário dos mortos do passado, sempre de colarinho e pescoço duros, quase que posando para o medalhão do próprio jazigo, os de hoje estão disponíveis em cores, felizes, fotografados em alguma ocasião festiva. Protagonizam momentos que eles quiseram partilhar com os amigos. São essas as fotos que agora ilustram as reportagens sobre as grandes catástrofes.São essas as fotos das vítimas da queda do Airbus da Air France que a imprensa tem dado. Doem mais porque, nelas, as pessoas estão radiantes de despreocupação e de confiança no futuro.

Fonte: Folha de SP, de ontem, 10/06/2009.

Domingo, 7 de Junho de 2009

Ensaio (I) - Natália Tonda



Há (já!!!) cinco anos edito uma página no Jornal da UFRGS que chamamos de "Ensaio". Nada muito novo, uma página de fotografia em uma revista (é um jornal, mas é uma revista, por que é mensal, com reportagens sempre buscando aprofundamento de temas que, no geral, passam batidos ou apressados pela "grande imprensa"). Vou tentar apresentar aqui os ensaios que fizemos neste tempo, quase sempre procurando mostrar a diversidade do que se pode fazer com fotografia, de fotojornalismo-a-arte-a-fotojornalismo-a-arte seja lá quais forem as diferenças entre ambos.
O primeiro que mostro é da edição de abril/maio, da fotógrafa Natália Tonda, paulistana que está em Porto Alegre, fazendo o curso de Fotografia na Unisinos.
Para ficar completo, seria legal ver as fotos ouvindo King of the Dogs, do disco Preliminaires, do Iggy Pop. :)

Lomografias
Texto e fotos de Natália Tonda

Acostumei-me a encontrar beleza na desordem morando em São Paulo e convivendo com isso diariamente. Coisas para as quais olhamos e não vemos. Para alguns, fugir do caos e da desordem, é o grande desafio. Juntar os dois e transformar em expressão, pode ser quase inimaginável. É isso que procuro colocar em minhas imagens: o feio, o esquecido, o caótico, o desgasto. Através da lomografia, como mostram as imagens desta página, tenho encontrado resultados tão incertos quanto as imagens do dia-a-dia. Da imprecisão do clique até a hora em que o químico revela o positivo, a ansiedade em saber o resultado toma conta de todos os planos da imagem. O resultado é sempre surpreendente. Lomografia é um termo derivado de LOMO (Leningradskoye Optiko Mechanichesckoye Obyedinenie), câmeras não- convencionais, muita vezes chamadas de “câmeras de brinquedo”. Para mim, é como projetar a sensação de sonho em atividades simples do cotidiano. Transformar o caos em fotografias contrastadas e cheia de cor.
Na Lomo, seu apelido afetivo, a lente Minitar é capaz de gerar um brilho diferente na imagem. Por outro lado, o seu modo de exposição automática do filme, mesmo em difíceis condições de luz e sem a utilização do flash, torna mais fácil entender por que esse tipo de fotografia atrai um público cada vez mais amplo, que vai de quem tem prática com câmeras sofisticadas até quem nunca teve intenção em se dedicar à fotografia. A característica deste tipo de câmera é incentivar a busca de um olhar próprio e de instigar o desejo por imagens diferentes. E, claro, dar mais chance ao acaso, ao erro, ao incerto como forma de expressão.







Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Tiananmen 20 anos


Foto: Jeff Widener


As datas "redondas" servem, ao menos, para nos lembrar de fatos, notícias, ações e questões que pela nossa loucura cotidiana vamos deixando para trás, o show tem mesmo que continuar.
Hoje faz 20 anos que uma das cenas mais reprisadas do fotojornalismo e do jornalismo televisivo foi feita: a imagem do "homem-que-parou-os-tanques", na praça Tiananmen, em Pequim (ironicamente, na tradução, a Praça da Paz Celestial).
Além da brutal disparidade de poder - um homem a pé contra vários tanques de guerra - a imagem nos leva para dentro dela por outros detalhes: o sujeito está vestido como quem saiu para as compras da manhã (ele tem algumas sacolas plásticas nas mãos), está vestido com uma singela camiseta branca, está sozinho, e, principalmente, parece afrontar poderes que nos massacram o tempo todo e aos quais não vemos maneiras de resistir.
As informações que se têm dão conta de que o personagem da imagem nunca foi identificado, não se sabe qual foi o seu destino ou mesmo se sobreviveu àquele dia - no dia anterior, o governo chinês havia invadido a praça para abafar um protesto estudantil que pedia reformas democráticas, o que resultou em centenas de mortos. Ao que parece, também, na China, pelo bloqueio de informações e censura imposta pelo regime, essa não é uma imagem conhecida ou mesmo reconhecida pelos jovens como parte da história do país.
Por outro lado, os bastidores de como a fotografia foi feita é cheia de nuances e de interesse para quem gosta de fotojornalismo e informação. No link http://lens.blogs.nytimes.com/2009/06/03/behind-the-scenes-tank-man-of-tiananmen/, do blog de fotojornalismo do NY Times, foi postado um texto com o relato de quatro fotógrafos que estavam no local e que fizeram, de um mesmo ponto de vista mas de maneiras diferentes, o registro daquela situação. Tempo de filme, câmeras mecânicas, lente 400mm, duplicador, asa errada, e o melhor: o velho pavor da foto 36...
Além disso, para quem quiser lembrar, no link http://www.youtube.com/watch?v=yyj-3S_ulvI&NR=1, está publicada uma reportagem de TV feita nos EUA a respeito dos massacres de Tiananmen e também sobre o enfrentamento do homem com os tanques.

- Atualizando 1 (5/06, 11h): Depois do post no blog do NY Times, um fotógrafo mostrou uma foto que nunca havia publicado, feita do nível do chão, de um ângulo totalmente diferente das outras. A foto e o depoimento de Terril Jones pode ser vista em http://lens.blogs.nytimes.com/2009/06/04/behind-the-scenes-a-new-angle-on-history/.

- Atualizando 2 (5/06, 16h): o Le Monde postou um documentário sobre os eventos da Praça Tiananmen com imagens de fotógrafos da Magnum. Pode ser acessado em http://www.lemonde.fr/asie-pacifique/visuel/2009/05/25/generation-tian-anmen-avoir-vingt-ans-en-chine_1195170_3216.html

Domingo, 31 de Maio de 2009

Sebastião Salgado no NY Times


Foto: Kevin Scanlon, para o The New York Times, em Los Angeles.

No blog e no site do NY Times, publicado hoje (http://www.nytimes.com/2009/05/31/arts/design/31fink.html?pagewanted=1&_r=1)

SEBASTIÃO SALGADO sounds as if he’s slightly allergic to Los Angeles. It’s not just that this celebrated Brazilian photojournalist has been sniffling since he arrived in the city, explaining: “I was born in a tropical ecosystem. I’m not used to these plants.” It’s also that he peppers his description of the city with words like strange and crazy, noting that he was mesmerized by the sight of the endless stream of automobile traffic as his plane made its descent.
The urban sprawl of Los Angeles is, in any case, a far cry from the remote, sparsely populated jungle and desert locations where he has been traveling for his epic, ecological work in progress “Genesis.” Famous for putting a human face on economic and political oppression in developing countries, Mr. Salgado is photographing the most pristine vestiges of nature he can find: pockets of the planet unspoiled by modern development. He has visited the seminomadic Zo’e tribe in the heart of the Brazilian rain forest and weathered desolate stretches of the Sahara. Next up: two months in the Brooks mountain range of Alaska on the trail of caribous and Dall sheep.
But this brand of environmentalism is costly enough to send him back to major cities for support. That’s what brought him here for a three-day whirlwind of talks, meetings and parties. One night he gave a slide show featuring new work from “Genesis” to a sold-out crowd at the Hammer Museum. The next evening he was a guest of honor at a fund-raiser at the Peter Fetterman gallery in Santa Monica, where some of his new work appears in his show “Africa,” through Sept. 30. After that it was off to San Francisco for a benefit dinner given by Marsha Williams before returning to Paris, which he considers home along with Vitória, Brazil.
It might sound like a punishing schedule, but the 65-year-old photographer says he doesn’t mind and doesn’t lose focus on work even when flocked by art collectors and celebrity backers. Sitting down at the Peter Fetterman gallery, with his image of zebras in Namibia hanging overhead, Mr. Salgado compared his time away from nature to the potentially disruptive moment when he has to change the film in his camera, when he likes to close his eyes and sing so as not to lose concentration.
“I came here for special things, but my head is there, my body is there,” he said with an intent expression and a gentle Portuguese accent. “I might be sleeping in a hotel room in Los Angeles, but in my mind I am always editing pictures.”
For “Genesis,” an eight-year project now more than half completed, he is piecing together a visual story about the effects of modern development on the environment. Yet rather than document the effects of, say, pollution or global warming directly, he is photographing natural subjects that he believes have somehow “escaped or recovered from” such changes: landscapes, seascapes, animals and indigenous tribes that represent an earlier, purer — “pristine” is a favorite word — state of nature.
In this way “Genesis” is a grand, romantic back-to-nature project, combining elements of both the literary pastoral and the sublime. Mr. Salgado also describes it as a return to childhood, as he was raised on a farm in the Rio Doce Valley of southeastern Brazil — then about 60 percent rain forest — that suffered from terrible erosion and deforestation. Years later, in 1998, he and his wife, Lélia, founded the Instituto Terra on 1,500 acres of this land to undertake an ambitious reforestation project. His wife, who also designs his books and exhibitions, is the institute’s president; he is vice president and the institute’s most famous spokesman. Or, as Ian Parker wrote in The New Yorker, Mr. Salgado is more than a photojournalist, “much the way Bono is something more than a pop star.”
In short, while the Instituto Terra is the locally rooted arm of his environmental activism, “Genesis” is its globally minded, photo-driven counterpart. Since undertaking the series in 2004, he has visited some 20 different sites across 5 continents.He began with a shoot in the Galápagos Islands that paid homage to Darwin’s studies there. (Mr. Salgado says his title, “Genesis,” is not meant to be religious.) “Darwin spent 37 to 40 days there,” he said. “I got to spend about three months there, which was fabulous.” He was thrilled to see for himself evidence of natural selection in species like the cormorant, a bird that lost its ability to fly after a history of foraging for food underwater, not by air.
Last fall he spent two months in Ethiopia, hiking some 500 miles (with 18 pack donkeys and their owners) from Lalibela into Simien National Park to shoot the mountains, indigenous tribes and rare species like a very hairy baboon known as the Gelada. “I was traveling in this area in the same way people did 3,000 to 5,000 years ago,” he said.
Well, almost the same way. He did carry a satellite phone, which made him the point person for receiving news of the United States election in November. “When we found out that Obama won, everyone driving these donkeys, everyone was jumping up and down,” he said. He called Mr. Obama’s election “a victory for the planet.”
He is cautiously optimistic about his own environmental work. “I’m 100 percent sure that alone my photographs would not do anything. But as part of a larger movement, I hope to make a difference,” he said. “It isn’t true that the planet is lost. We must work hard to preserve it.”
His earlier projects were also driven by a sense of urgency. Before becoming a photographer he did doctoral work in agricultural economics at the University of Paris and served as an economist for the International Coffee Organization in London. You can see this training in the scope and complexity of his photography.
“Workers,” a seven-year project completed in 1992, featured images of laborers from 26 countries, including his acclaimed pictures of the Serra Pelada miners in Brazil. “Migrations,” a six-year project spanning some 40 countries that was completed in 1999, focused on migrants, refuges and other displaced populations that are financially and often physically vulnerable. (Both series became coffee-table books.)
A Getty Museum curator, Brett Abbott, who is including “Migrations” in his 2010 exhibition survey of narrative photojournalism, called this “epic approach” one of the Mr. Salgado’s hallmarks: “Of all the photographers I’m looking at, he’s probably taken on the biggest conceptual frameworks. He’s always looking at global problems.”
In this way “Genesis” represents less of a departure than it might at first seem. Even though he recently switched to a digital camera for large-format printing, his pictures have a consistent sensibility. He still generates contact sheets. He still likes to backlight his subjects, emphasizing — or romanticizing, his critics say — their forms. He still works in black and white. And his work still culminates in photo essays that, through a network of smaller stories, reveal something about an entire species. His fundamental subject is social systems, and now ecosystems.
His longtime gallerist, Peter Fetterman, also sees a strong through line in his career. While initially surprised by the turn to lush landscapes (“When I first saw the contact sheets, I thought maybe I was in the wrong studio, or the Ansel Adams archive”), he called Mr. Salgado’s empathy for subjects an overarching trait. “Other photojournalists go in and out for a day,” Mr. Fetterman said. “Sebastião goes and lives with his subjects for weeks before he even takes a picture.”
Mr. Salgado also emphasizes the continuities between his various projects. “There is no difference photographing a pelican or an albatross and photographing a human being,” he said. “You must pay attention to them, spend time with them, respect their territory.” Even landscapes, he said, have their own personality and reward a certain amount of patience.
His goal for “Genesis” is to produce a total of 32 visual essays, which he hopes to display in major public parks as well as at various museums starting in 2012. “It’s my dream to show the work in Central Park, not in some building but outside among the trees,” he said.
So far financial support from the project has come from gallery sales and reproduction deals with magazines like Paris Match in France and Visão in Portugal. Two Bay Area foundations — Susie Tompkins Buell’s and the Christensen Fund — have lent support. Eventually, to raise money for printing, he plans to issue a limited edition of 20 platinum photographs, a first for Mr. Salgado, who is known for rather democratically printing as many pictures as there are orders.
That’s just one of the elements that makes “Genesis” seem like a legacy project: a veteran photojournalist’s carefully planned and well-meaning contribution to his children, grandchildren and the world at large. But he said he did not think it would not be his last. While admitting that he might not attempt another 500-mile hike over the Simien Mountains, he said he had no plans to retire any time soon.
“I don’t know any photographer who stopped working because he turned 70,” he said, adding that as a breed they tend to live a long time. He mentioned Henri Cartier-Bresson, who died at the age of 95, and Manuel Álvarez Bravo, who lived until 100.
“I was in Mexico City for Álvarez Bravo’s 100th-birthday celebration,” Mr. Salgado said. “He was sick, with his feet inside a tub of hot water, but he still had his camera. So he was photographing his feet.”


Iceberg, Antártica (2005)


Mar de Areias, Namíbia (2005)


Pescadores em Mato Grosso, Brasil (2005)

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Da Folha de SP (3) - Aprendendo a Ver


Centro Georges Pompidou


MoMA

Aprendendo a ver

MARCELO COELHO

Somos um bocado cegos diante do mundo, mas os fotógrafos nos ensinam a enxergar

A maior parte das pessoas vai a um museu de arte para ver, claro, quadros e esculturas. Digo "a maior parte" porque há também os que não têm grande interesse no assunto e simplesmente acompanham, puxados pelo braço, quem os levou até lá. Digo "ver" os quadros e esculturas, mas isso também é exagero. A gente passa por eles, toma conhecimento de que existem, mas nem sempre é fácil "ver" aquilo que está num museu. Às vezes o embolo é tão grande, que em pouco tempo nosso único desejo é sair dali e "ticar" aquele item da nossa congestionada agenda de turista. O fotógrafo brasileiro Alécio de Andrade (1938-2003) pertencia a uma categoria mais rara de visitantes. Durante 39 anos, frequentou o Museu do Louvre. Não para ver as obras, mas para fotografar quem as via.É uma fauna e tanto. Uma das poucas vantagens desses lugares de grande aglomeração turística é poder apreciar a variedade de rostos, de tipos, de atitudes e de idades reunidas em torno de um grande quadro - que surge então não apenas pelo que tem de bonito em si, mas pelo que traz de síntese de toda a humanidade. "O Louvre e Seus Visitantes", em cartaz até 21/6 no Instituto Moreira Salles de São Paulo, reúne várias das fotos tiradas por Alécio Andrade nessa espécie de pesquisa antropológica, muitas vezes irônica, e de vez em quando tomada de lirismo. A ironia aparece, por exemplo, quando três freiras são retratadas de costas, dentro de seus volumosos hábitos cinzentos, absortas na contemplação das Três Graças da mitologia grega, nuíssimas num quadro neoclássico.Cansaço, tédio, vivacidade, sono, discórdia e companhia conjugais se sucedem nas fotos de Alécio Andrade, como se, numa pose inconsciente, todo turista tivesse sido pintado, também, pelos mestres que se escondem do outro lado da parede. O mais bonito de tudo, eu acho, são os cabelos. O glorioso e desgrenhado fluxo de ouro que emoldura uma turista, o comportado corte preto de outra, a surpresa de uma maria-chiquinha fulgurante, o empasto uniforme de uma menina triste como um anjo, tudo lembra e revive as pinceladas, as ventanias, os pudores dos Botticellis e Watteaus, quando fixaram na tela o rosto de tantas mulheres, hoje transformadas em pó. Fotos de pessoas de costas: este é um dos temas do livro brilhante do escritor inglês Geoff Dyer, "O Instante Contínuo", lançado recentemente pela Companhia das Letras.Trata-se, como diz o subtítulo, de "uma história particular da fotografia". Em vez de seguir rigorosamente a cronologia, o autor escolhe temas que possam nos guiar através de um labirinto de imagens, de percepções, de personalidades e de momentos da história do século 20.

Fotos de cegos
Fotos de cegos tocando sanfona. Fotos de multidões usando chapéu. Fotos de escadas. De cercas brancas. De janelas. Comparando, com essas chaves sucessivas, as obras de Paul Strand, de André Kertész, de Edward Weston ou de Walker Evans, o livro de Geoff Dyer é uma maravilha de astúcia, de humor e sensibilidade. Ele evita as armadilhas do formalismo técnico, do sociologismo e do psicologismo, sabendo misturar todos os enfoques sem nunca perder a mão.É difícil ver um crítico capaz de combinar tanta imaginação e senso de realidade num único parágrafo, numa descrição breve de uma obra de arte. A história da grande depressão econômica dos anos 1930, escreve Dyer, "pode ser contada pelas fotografias dos chapéus masculinos".Todos os homens pareciam iguais nas fotos daquela época, porque os chapéus tendiam a uniformizá-los. Antes da crise, chapéus eram sinais de prosperidade e de igualdade. As fotos de 1930 passam a revelar outras coisas: concentração de força política numa manifestação de operários; penúria extrema a pesar sobre a cabeça de um lavrador; anonimato, desistência; último instrumento de trabalho de um mendigo, à espera de esmolas numa esquina.O mendigo, numa foto de John Vachon tirada em 1937, era cego. O fascínio dos fotógrafos pelos cegos é mais do que compreensível. Os turistas do Louvre, retratados por Alécio Andrade, não são muito diferentes desses cegos; de resto, na maior parte do tempo somos todos um bocado cegos diante do mundo. Mas os fotógrafos servem exatamente para nos ensinar a ver; Geoff Dyer é um daqueles críticos que fazem isso também.PS - Na semana passada, escorreguei no latinório. Escrevi "pacta sum servanda" (os contratos devem ser respeitados) mas o certo é "sunt", não "sum".


coelhofsp@uol.com.br

Fonte: Folha de SP, de 27/05/2009.

P.S. de Campo de Visão: sempre gostei, tanto quanto de ver tudo o que via, de fotografar em museus. Fiz as fotos desta postagem, também, mais olhando para os lados do que para o que devia (!) olhar.


Centro Cultural Belém, Lisboa


Museu d`Orsay


Fundação Henri Cartier-Bresson


Louvre


Museu Rodin


Centro Georges Pompidou


Museu d`Orsay


Louvre


Centro Cultural Belém, Lisboa


Centro Georges Pompidou


Centro Cultural Belém


Fundação Henri Cartier-Bresson


Louvre


Aliança Fancesa, Buenos Aires


Centro Cultural Recoleta


Memorial aos Desaparecidos, Buenos Aires


Museu d`Orsay


Museu d`Orsay

Domingo, 24 de Maio de 2009

Da Folha de SP 2 (ou antes tarde do que nunca)




Robert Mapplethorpe, que chocou os EUA com sexo e nudez, ganha mostra

Galeria exibe mais de 30 fotografias do artista, entre nus masculinos e femininos e retratos clássicos de copos-de-leite, orquídeas e tulipas

SILAS MARTÍ (DA REPORTAGEM LOCAL)

Robert Mapplethorpe era do tipo que não esquecia aniversários. Descrito como doce e simpático pelos amigos, era ótimo na mesa de jantar, alguém que não pensariam duas vezes antes de apresentar para a mãe. Também foi quem mais chocou a sociedade norte-americana com imagens de sado-masoquismo, sexo e nudez. Mapplethorpe, que tem mais de 30 fotografias expostas na galeria Fortes Vilaça, em São Paulo, assumiu a homossexualidade na arte contemporânea com mais veemência do que qualquer outro artista de sua geração.Antes de morrer de Aids em 1989, o filho de operários católicos do Queens fotografou a roqueira Patti Smith, namorou o colecionador Sam Wagstaff, escalou modelos negros e um albino para um enlace erótico PB e iluminou flores como Josef von Sternberg filmou Marlene Dietrich em "O Anjo Azul". Tudo em nome da forma."Ele se interessava por beleza, basicamente", lembra seu amigo e advogado Michael Scout, 65, hoje diretor da Mapplethorpe Foundation, que cuida do espólio do artista, em Nova York. Foi ele quem defendeu as obras do fotógrafo de censura numa exposição em Cincinnati, nos anos 90, que acabou com a prisão -e pouco depois a soltura- do diretor do museu.
Flores túrgidas
"Mas o escândalo é o que menos importa no trabalho dele", defende o curador italiano Germano Celant, 69, que costumava se hospedar no estúdio de Mapplethorpe. "As pessoas se chocavam com o tamanho dos pênis, mas sua obra é clássica."Mapplethorpe tratou mesmo a pele como mármore e bronze. Sua obsessão por modelos negros, quase sem pelos, refletia o pensamento de Michelangelo, que tentava "libertar a forma da matéria", e Rodin, com suas peças de metal lisas, sem arestas.Numa sessão de fotos, Mapplethorpe chegou a se irritar com uma modelo por causa de uma ruga no seio. "Queria que ela fosse lisa, perfeita, como uma escultura de [Antonio] Canova", lembra Celant, denunciando o flerte do artista com pulsões neoclássicas que, por pouco, não esbarram no cafona.Na mostra paulistana, imagens de homens e da body-builder Lisa Lyon, com feições quase masculinas, estão expostas junto de fotografias que fez de copos-de-leite, orquídeas e tulipas. "Mais do que o masoquismo, as flores são a parte mais erótica de sua obra", afirma Celant. "Ele dizia que elas tinham de ser colhidas ainda túrgidas."Isso porque gostava de aproximar caules e pétalas de pernas, braços e outras partes do corpo. "Era um formalista", resume Richard Flood, 65, curador do New Museum, que prepara um livro sobre o artista."Ele pensava só nos tons de preto, de cinza, de branco."

ROBERT MAPPLETHORPE Quando: abertura hoje, às 19h; ter. a sex., 10h às 19h; sáb., 10h às 17h Onde: Fortes Vilaça (r. Fradique Coutinho, 1.500, tel. 0/xx/11/ 3032-7066; classificação: livre) Quanto: entrada franca
Fonte: Folha de São Paulo, 14/05/2009


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Patti Smith e Mapplethorpe, quando eram casados.

Domingo, 17 de Maio de 2009

Bob Dylan, Bruce Davidson e Josef Koudelka



O último disco de Bob Dylan, Together Through Life, traz como ilustrações duas fotos dos fotógrafos da cooperativa Magnum, Bruce Davidson (capa) e Josef Koudelka (contracapa).
A foto de Davidson é de um dos seus clássicos ensaios com adolescentes, mais especificamente com uma gang conhecida como The Jokers, realizado em 1959. Na imagem, um casal se beija ("se pega"...) no banco de trás de um carro, fotografados desde o banco da frente. Íntimo, o Bruce Davidson.
A foto da contracapa, do fotógrafo tcheco Josef Koudelka, é parte do ensaio realizado também no começo dos anos 60 sobre os ciganos do leste europeu.
Segundo o site da Magnum, além de usar a foto de Davidson, Bob Dylan solicitou que o setor "In Motion" da agência produzisse um pequeno vídeo com outras imagens do mesmo ensaio do fotógrafo, utilizando como áudio uma das músicas do novo disco. Aliás, a foto da capa tem mesmo tudo a ver com o nome do álbum.

O vídeo (um preview curtíssimo) pode ser visto em http://inmotion.magnumphotos.com/essay/brooklyn-gang, ou integral (com menos qualidade), pode ser visto em http://www.amazon.com/gp/mpd/permalink/mAL9TK87AMS9T .

Outras fotos de Davidson podem ser vistas em http://www.magnumphotos.com/Archive/C.aspx?VP=XSpecific_MAG.StaticPage_VPage&SP=photographers_list&l1=0&XXAPXX=SubPanel10, e outras fotos do Koudelka podem ser vistas em http://www.magnumphotos.com/Archive/C.aspx?VP=XSpecific_MAG.StaticPage_VPage&SP=photographers_list&l1=0&XXAPXX=SubPanel10.

No Magnum in Motion pode-se ver, também, um video sensacional com fotos do Koudelka sobre a primavera de Praga (a invasão russa da antiga tchecoeslováquia, em 1968) em http://inmotion.magnumphotos.com/essay/invasion. (e preste atenção: na primeira cena, o fotógrafo em cima de um tanque é o próprio Koudelka)

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Martin Parr em SP


Fotos: Natália Tonda

Ontem aconteceu em São Paulo uma palestra com o fotógrafo britânico (qual a diferença entre inglês e britânico?) Martin Parr, famoso pela irreverência de suas imagens e pela documentação cheia de humor dos hábitos da classe média inglesa (ou britânica?).
De lá, recebi umas fotos e o relato da Natália Tonda, aluna em Projeto Experimental em Fotografia e em Fotojornalismo, na Unisinos. Vai abaixo:

Vou te contar um pouco do que aconteceu:
Foi bem bacana escutar o próprio maluco falando do trabalho irônico dele.
O pessoal do Garapa estava comandando o bate papo, com perguntas feitas por quem via a entrevista online, com o pessoal da platéia e com perguntas do próprio coletivo.
Antes das perguntas, Martin Parr começou se apresentando, com um slide de fotos e algumas palavras.
Comentou que quando se formou em fotografia não queria ser como todos que se formavam: começavam sendo ajudantes de fotógrafos para depois montar um próprio estúdio. O Martin queria ir além, queria fazer as próprias fotos, sem ter que fazer fotos para vender para os outros. Com isso foi atrás do que gostava de fotografar: comentou que gostava do uso do flash em ocasiões inoportunas, como quando se usa o flash na chuva/neve e a foto fica com manchas, ele adora essas manchas, então todas suas fotos de tempo carregam esse “efeito”. Quando descobriu essa linguagem resolveu fotografar o tempo ruim da Inglaterra. Daí fez o livro Bad Weather.
E assim saiu fotografando o próprio preconceito, como ele mesmo disse. Usa coisas que não gosta a seu favor. Bem britânico!
Ele explica que vêm daí seu estilo, suas fotos inoportunas e bizarras.
Falando sobre suas fotos, acabou comentando das fotos do The Last Resort: há pouco tempo recebeu um e-mail da criança que esta sentada junto de umas senhoras na praia. No e-mail, a criança dizia que fazia design e entendia toda a estética da foto. Martin aproveitou a deixa dizendo “é engraçado receber e-mail de um bebê”.
Falou também de que sempre se fotografam ou os pobres ou os ricos, mas ele resolveu fotografar a esquecida classe média, e como ele faz parte dela, disse que foi como fazer um auto retrato, então sabia de tudo que detestava e tudo do que gostava. E foi com isso que obteve ótimas imagens do livro The Cost of Living.
Comentou o quanto adora Las Vegas e como o EUA ajudaram ele em diversos trabalhos.
Mostrou e comentou um pouco de cada livro já publicado, e sempre com suas piadas britânicas.
Legal foi quando perguntaram se ele tinha problemas com direitos autorais por causa do uso de imagens dos seus personagens e ele respondeu dizendo que não, pois são imagens para um livro, uma exposição e não para revistas. Falou que sempre procura fotografar em lugares públicos para justamente não passar por esse tipo de problema. Porem na França, com novas leis rigorosas a respeito do uso de imagem, disse que tem dificuldade em fotografar e espera que essa lei não se espalhe pelo mundo.

Não consegui filmar porque a tradução era simultânea, por fone de ouvido, logo ficaria sem áudio. E também, a diretora do MIS estava do meu lado, já de cara feia para a minha câmera! Mas consegui algumas fotos, que estão aí! :)
P.S. (de Campo de Visão): a entrevista foi gravada e pode ser assistida na íntegra no link http://www.garapa.org/2009/05/martin-parr-na-integra/

Domingo, 10 de Maio de 2009

Do baú 1



Remexendo no baú, encontrei três pérolas (acho que desde 1976 não dizia "pérolas") de fotografia de show, em filme. Uma com a Sandy, cheia de amor. Outra com o Latino, "nas nuvens"(certamente também cheio de amor pra dar). E o playbackão comendo, uh tererê! Por falar em playback, a terceira é do De Falla.




Mas também teve noites pra lá de boas, com o Luis Melodia (no Dado Tambor, em 2003), com o Nando Reis (sei lá onde, tampouco quando. Lembrei: foi na noite que ele baixou a calça e mostrou os documentos pra platéia, doidão doidão doidão! Pô, todo mundo andava cheio de amor pra dar???), e com o Manu Chao (no Forum Social Mundial/2005). Doidão também, mas de calça no lugar, e ensimesmado com a companhia da página :)